Monday, 11 June 2012

Agência de Desenvolvimento Nosso Lugar - agencia.nossolugar@gmail.com



Missão

A Agência de Desenvolvimento Nosso Lugar é uma associação civil sem fins lucrativos, apartidária e interrieligiosa, que tem como missão buscar soluções para o desenvolvimento local, valorizando a participação social, os vínculos comunitários e as potencialidades dos territórios de atuação.  A organização vai atuar no bairro de Irajá e adjacências.

Visão

Até 2017, ser instituição referência de desenvolvimento local e mobilização comunitária em Irajá.




Agência de Desenvolvimento Nosso Lugar

Levi Gonçalves - (21) 9138-9338/ 7306-3668



Ana Paula Santos - (21) 9161-8967

Monday, 1 August 2011

Rio de Janeiro

Rio visto das Cagarras, foto de Isabella Lychowski, inverno, 28/07/2011

Trechos de amantes do Rio de Janeiro coletados por aí

"Não sei se fico até morrer, mas transbordo de amor por ter vindo."
Thaís Gulin, Revista O Globo, 31/07/2011, pág 30

"É essa sensação louca de viver numa cidade onde você realmente não tem necessidade de pensar em nenhum outro lugar do mundo enquanto esta vivendo ou morrendo nela."
Felipe Hirsch, Segundo Caderno, O Globo, 01/08/2011, pág 2
  "No Pão de Açúcar
  De cada dia
  Dai-nos, Senhor
  A poesia de cada dia"
  Oswald de Andrade

Saturday, 25 June 2011

Texas Blue, um peixe e eu

Texas Blue, foto de Isabella LychowskiQuando me percebi diante de Texas Blue, um curioso peixe oriundo do México que silenciosa e vagarosamente veio ter comigo diante de seu aquário úmido, tive uma espécie de encantamento consciente.

Havia dias eu vinha pensando no que poderia ser a síntese de "Poesia", de Lee Chang-dong, um filme que eu havia visto uns dias atrás e que havia ficado, em partes.

Decerto que a mulher protagonista, que como Texas Blue vivia sua vida sem extravasar-lhe sequer um átimo na franca prática do Caminho do Meio, ou Tao [e em tempos pós-Google não posso nem mesmo precisar até que ponto são sinônimos], decerto que ela apreciaria o modo como eu olhava e via Texas Blue naquele momento.

Fiquei mais uma vez contente com a poesia que há nas coisas. A grande questão está em vê-la e decididamente cercá-la de sujeito a cada dia, a cada passo. Essa consciência premente de que tudo está vivo, de que tudo é, enquanto nós assim o percebemos, isso é que nos leva a essa delicada epifania.

"Eu sou o outro". Não há cor, som, suor ou afobação na frase. Tampouco no parque. O silêncio é que prevalece por entre algumas vozes agitadas [o aquário de Texas Blue está encrustado em uma caverna aberta à visitação do público], o barulho de passos, o canto de pássaros diversos, o farfalhar de árvores e da tarde caindo mais depressa porque é inverno.

Mais adiante, os dias passando em seu ritmo próprio, cai-me às mãos uma ilustração de Jiro Taniguchi, que desconhecia. Nela, "O homem que caminha" está sentado em uma árvore. Nela, reencontro a mulher do filme e a mim mesma, já os sou também.

Não é uma grande revelação, porém é incomensurável. [Risos. Essa figura de linguagem pertence a outro fillme, com dos lls.]

No mais, o café que nos engoliu na Rua J. J. tem uma maçã no nome, o Pequeno Príncipe voltará à galáxia dentro em breve, a comunicação com o homem do futuro permanecerá incógnita e eu me lembrarei de alguns passos que dei pelo caminho do meio.

Sunday, 27 March 2011

Patinho feio, sim; cisne negro, não!

Cisne negro e patinho feio O incensado filme "Cisne negro", de Darren Aronofsky, está naquela minha prosaica listinha "não vi e não gostei".

E que tenho eu contra o filme? Tudo. Filosoficamente e metafisicamente o filme não me agrada. Sim, mesmo sem tê-lo visto chego a essa taxativa conclusão ou será autoconhecimento (sem fazer juízo de valor)?

Não gosto de cisnes negros. Gosto de cisnes brancos. Simples assim e deixo logo claro, metaforicamente também.

A troco de que iria ao cinema para ver algo de que eu não gosto, "the horror, the horror"? Que graça há em ver um cisne branco se transformar em cisne negro?

Há quem me diga, mas a vida é assim. Sim, a vida está cheia de situações cisne negro (ou não!) e em algum dado momento temos que lidar com elas. Sim, lidemos, ora, quando e se, vivermos tais situações.

Quando tranportamos situações-limite, sofrimento, adversidades para a telona de tal forma que o enredo nos encaminhe para uma redenção, nos faça alquimizar nossas dores, nos traga um insight, nos mostre a luz que se acende no fim do túnel, então ótimo, me interessa, quero mesmo e muito ou até ver. Caso contrário, pra mim soa e dói apenas como mais um item na coleção cultural e midiática de desgraças a rodo que assolam nossos olhos.

Gosto de uma anedota, atribuída à uma antiga chamada Rádio Relógio, que dizia assim:

"Você sabia, que se você cortar o camaleão ao meio, ele não gosta?" Pim, pim, pim.

Pois é, ele não gosta. Eu tampouco e não vou ao cinema assitir a cenas com camaleões sendo cortados ao meio e não gostando nada, nada disso.


Outro dia, vi em um grande portal a seguinte chamada: "clique aqui e veja a destruição no Japão com zoom".


Eu quero ver o zoom na reconstrução do Japão.

Wednesday, 23 March 2011

Some of Elizabeth Taylor´s last tweets

Elizabeth Taylor Every breath you take today should be with someone else in mind. I love you. 11:39 PM Jul 22nd, 2010 via web

Because then it becomes about yourself...which is wrong. Giving is to give to God. Helping is to help others. 11:39 PM Jul 22nd, 2010 via web

That is the thing that will give back to you all the rewards that there are. Don't do it for yourself, because then it becomes selfish. 11:37 PM Jul 22nd, 2010 via web

Give. Remember always to give. That is the thing that will make you grow. 11:36 PM Jul 22nd, 2010 via web

You are who you are. All you can do in this world is help others to be who they are and better themselves and those around them. 11:35 PM Jul 22nd, 2010 via web

Never let yourself think beyond your means...mental, emotional or any otherwise. 11:33 PM Jul 22nd, 2010 via web

I would like to add something to my earlier tweet. Always keep love and humility in your heart. 11:31 PM Jul 22nd, 2010 via web

Not at least until I'm dead, and at the moment I'm having too much fun being alive...and I plan on staying that way. Happiness to all. 10:20 PM Jul 22nd, 2010 via web

No one is going to play Elizabeth Taylor, but Elizabeth Taylor herself. 10:19 PM Jul 22nd, 2010 via web

Source Fonte : http://twitter.com/DameElizabeth (@dameelizabeth)

Wednesday, 10 November 2010

Não existem nações, RIP Svetlana Geiger



Nações não existem, somos todos um. Foi a conclusão a que cheguei em plena [vazia ;-(] Cinemateca do MAM depois de assistir ao belo doc "A mulher com os cinco elefantes", de Vadim Jendreyko (Alemanha, 2009), que apresenta ao mundo cinéfilo Svetlana Geiger, 85 anos, maior tradudora do russo para o alemão.

Assisti ao filme há duas semanas. Ontem soube que Svetlana morreu em casa domingo, dia 8 de novembro, em paz e de causas naturais.

O filme até então inédito no Brasil havia sido exibido na semana anterior na Mostra SP de Cinema e esta era a única e sei lá porque não-divulgada sessão no Rio. [Alô, Instituto Goethe e Cinemateca do MAM, não havia sequer um tijolinho no jornal; soube por um amigo que viu em Sampa e achou uma menção na internet.]

Svetlana, a figura central do doc, esbanja vigor e é estranho escrever isso sabendo que ela faleceu anteontem. Mas vou manter o verbo no presente, que é a Svetlana do filme, vigorosa aos 85 anos, seja em suas tarefas domésticas [que vontade de comer os seus pãezinhos]; intelectuais, uma tradutora-monstra; ou na viagem a sua Kiev natal, a primeira vez em 65, isso 65 anos depois que emigrou para a Alemanha.

Não é possível dizer que Svetlana seja uma pessoa doce. Mas quanta doçura quando se expressa a primeira vez em russo no filme, já em Kiev, no trem, toda contente por estar de volta enfim, agradecendo efusivamente a um guarda gentil. Quanta ânsia em reviver de alguma maneira a sua infância encantada na dasha dos pais então ainda vivos com direito a fonte, cegonhas e um tantinho de sol. Não encontrou vestígio da dasha, mas revisitou muitos lugares com a neta Anna.

Svetlana e a mãe deixaram a Rússia no fim da II Guerra Mundial. Seu pai morreu em 1943, cerca de 18 meses depois de sair muito debilitado de um dos campos de Stalin. O pai contou tudo a Svetlana, mas ela então com quinze anos, não guardou na memória uma palavra sequer. Duro demais.

Svetlana criou uma casca, vê-se, e seguiu em frente. Tornou-se a maior tradutora de alemão para o russo. Os cinco elefantes do título são os cinco maiores livros de Dostoievski. Svetlana nunca quis voltar a Kiev, não havia razão para isso, até que durante as filmagens do doc, um dos seus filhos sofreu um grave acidente. Ele se afastou pra cuidar dele, hospitalizado durante meses, mas pôde enfim aceitar um convite para dar uma palestra em Kiev.

O doc mostra a sua viagem. É comovente. De volta de Kiev, alguns meses se passam e Svetlana consegue então falar sobre a morte do filho, que ocorreu um pouco depois de sua volta. Svetlana está muito triste, mas é certo que em pouco tempo muita coisa mudou em sua rotina de 65 anos.

Svetlana Geiger, sempre vigorosa, lúcida, às vezes doce, uma tradutora genial, uma mulher sofrida. As palavras são o seu reino e o seu refúgio. No início do filme, em off, avisa:
"o mais importante não é definível por palavras".

Saí meio zonza do filme, afinal, graças a ele, ganhei mais uma possível origem, visto que meus avós (tive cinco) nasceram em Kiev, Vladivostok, Chorinchen, Varsóvia e Cracóvia.

Meu avô paterno, polonês, foi contemporâneo do pai de Svetlana, que era russo. Ambos nasceram em Kiev.

Duas nacionalidades diferentes em uma mesma cidade natal, como?

Pesquisa daqui, pergunta dali, não desfez-se o imbroglio. Quando meu avô nasceu, a Polônia não existia como estado e fazia parte a fórceps do Império Rússia/Áustria/Hungria. Só iria ressugir em 1920. Entre muitos retalhos em sua história, ainda mais um em 1945.


Mapa de Europa em 1900 Mapa de Europa em 1900

Serei de alguma maneira russa também? Não sei. O que sei cada vez mais é que nacionalidades não existem, somos todos um.

Fontes:

Trailer do filme "A mulher com cinco elefantes" ("Die Frau mit den 5 Elefanten", em alemão e "The woman with the 5 elefants", em inglês), de Vadim Jendreyko, Alemanha, 2009

Mais sobre o filme no Imbd

Site oficial francês do filme: http://www.5elephants-lefilm.com/

Tuesday, 12 October 2010

Tanzträume, o último sonho de Pina Bausch

"O último de sonho de Pina Bausch" ("Tanzträume – Judgendliche Tanzen “Kontakthof” von Pina Bausch, em alemão ou "Dancing Dreams – Teenagers Perform “Kontakthof", em inglês), de Anne Linsel e Rainer Hoffman, Alemanha, 2010

O doc imita a vida. Os 40 adolescentes que a coreógrafa Pina Bausch selecionou para montarem o balé Kontakthof sequer tinham ouvido dela falar. Eram neófitos da dança, garotos socraticamente ignorantes, que, ao longos dos ensaios e do filme, desabrocham em um intenso e sublime processo junguiano de individuação. Cada um se descobre um mundo, uma pérola, ao mesmo tempo que se encontram uns através dos outros. "Tanzträume" é uma edição e colagem dos dez meses de ensaios acrescido de umas poucas cenas da estreia e de várias entrevistas com os garotos, as duas assistentes de Pina Bausch e ela própria, registros que acabaram sendo os seus últimos filmados. Pina Bausch faleceu em junho de 2009.

Ter assistido a este filme foi um experiência saborosíssima, riquíssima e encantadora. Recomendo a todos os amantes da arte. A sensação mais forte que me ficou, entre tantas, foi a de me reconhecer igualmente nos garotos, nas assistentes e em Pina Bausch. Deve ser como no filme "Bebês", que ainda não vi. Somos todos possíveis e os mesmos em nossas particularidades.

À saída da sessão, entreouvimos a senhora que disse, "eu veria 20 vezes esse filme". Fica a dica.



Trailer de Tanzträume :
http://www.youtube.com/watch?v=gvSCuO60bA8

Trechos do espetáculo Kontakthof, encenado em 1983:
http://www.youtube.com/watch?v=4ZbfsLW707I

Trecho da temporada atual (2010), no Barbican, em Londres, com adultos com mais de 65 anos:
http://www.youtube.com/watch?v=aorfl4CtmnU

Cinema without borders, texto:
http://www.cinemawithoutborders.com/news/143/ARTICLE/2190/2010-06-06.html

German documentaries:
http://german-documentaries.net/films/35442

Saturday, 9 October 2010

Tuesday, 28 September 2010

A mídia comercial em guerra contra Lula e Dilma

Por Leonardo Boff
23 de setembro de 2010

Sou profundamente pela liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o “silêncio obsequioso” pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o “Brasil Nunca Mais”, onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.Esta história de vida me avaliza fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a midia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de ideias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando veem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública. São os donos de O Estado de São Paulo, de A Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja, na qual se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e chulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um Presidente que vem desse povo. Mais que informar e fornecer material para a discusão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição. Na sua fúria, quais desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos, editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido a mais alta autoridade do país, ao Presidente Lula. Nele veem apenas um peão a ser tratado com o chicote da palavra que humilha.Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da pobreza, chegasse a ser Presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica produzindo.Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma), “a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada, antiprogresssita, antinacional e não contemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes, nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo -Jeca Tatu-; negou seus direitos; arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação; conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que continua achando que lhe pertence (p.16)”.Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles têm pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascedente como Lula. Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em baixo. Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o Presidente de todos os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável. Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados, de onde vem Lula, e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coronéis e para “fazedores de cabeça” do povo. Quando Lula afirmou que “a opinião pública somos nós”, frase tão distorcida por essa mídia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente arrebatou a pretensão da midia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palavra escrita, falada e televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.O povo cansado de ser governado pelas classes dominantes resolveu votar em si mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no Governo, operou uma revolução conceptual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo, mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de brasileiros. De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se fizeram classe média baixa e de classe média baixa de fizeram classe média. Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a ganhar mais salário, em fim, a melhorar de vida.Outro conceito inovador foi o desenvolvimento com inclusão soicial e distribuição de renda. Antes havia apenas desenvolvimento/crescimento que beneficiava aos já beneficiados à custa das massas destituídas e com salários de fome. Agora ocorreu visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no Governo atual há um déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas, importa reconhecer que Lula foi fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais marginalizados. O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste, assustada, ao fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil. Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das classes opulentas e ao seu braço ideológico que é a mídia comercial. A democracia participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST), odiado especialmente pela VEJA, que faz questão de não ver; protagonista de mudanças sociais não somente com referência à terra, mas também ao modelo econômico e às formas cooperativas de produção.O que está em jogo neste enfrentamento entre a midia comercial e Lula/Dilma é a questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocoloncial, neoglobalizado e, no fundo, retrógrado e velhista; ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas para construir um Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes?Esse Brasil é combatido na pessoa do Presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito das más vontades deste setor endurecido da mídia comercial e empresarial. A vitória de Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construído com suor e sangue por tantas gerações de brasileiros.

Saturday, 25 September 2010

Coletivo Passe Adiante

O Coletivo Passe Adiante (http://tiny.cc/passeadiante) está em construção. Se você se identifica com a ideia, participe!

Como participar
1 - Deixe na rua da sua cidade um presente para qualquer pessoa
2 - Deixe junto um bilhetinho. Escreva o que quiser, o importante é pedir pra pessoa que achar passar adiante, ou seja, deixar por sua vez um presente para qualquer pessoa em uma rua de sua cidade.
3 - Peça para a pessoa que achar compartilhar sua experiência através desse post aqui: http://tiny.cc/passeadiante. Esse link é provisório. O Coletivo crescendo, criamos um site ou uma rede social. Quem quiser, pode fazer isso.

Aí vai o primeiro presente do Coletivo Passe Adiante!

Deixei um ingresso do Festival do Rio dentro de um envelopinho marrom no tronco de uma árvore que fica na praça na esquina das ruas Marquês de Abrantes com Praia de Botafogo.

O ingresso é para o filme "Líbano", dia 29/09/2010, às 16 h, no Estação Botafogo 1.
Na primeira foto, a árvore. Na segunda, onde está o ingresso, dentro de uma casca que está se soltando.
Boa sorte!
Quem achar e usufruir, passe adiante e conte a sua experiência aqui.

Coletivo Passe Adiante
Coletivo Passe Adiante http://tiny.cc/passeadiante

Friday, 24 September 2010

Festrio, diário de uma cinéfila

Festival do Rio, foto de Isabella Lychowski

13/10, dia 8, "O último de sonho de Pina Bausch" ("Tanzträume – Judgendliche Tanzen “Kontakthof” von Pina Bausch, em alemão ou "Dancing Dreams – Teenagers Perform “Kontakthof", em inglês), de Anne Linsel e Rainer Hoffman, Alemanha, 2010

O doc imita a vida. Os 40 adolescentes que a coreógrafa Pina Bausch selecionou para montarem o balé "Kontakthof" sequer tinham ouvido dela falar. Eram neófitos da dança, garotos socraticamente ignorantes, que, ao longos dos ensaios e do filme, desabrocham em um intenso e sublime processo junguiano de individuação. Cada um se descobre um mundo, uma pérola, ao mesmo tempo que se encontram uns através dos outros. "Tanzträume" é uma edição e colagem dos dez meses de ensaios acrescido de umas poucas cenas da estreia e de várias entrevistas com os garotos, as duas assistentes de Pina Bausch e ela própria, registros que acabaram sendo os seus últimos filmados. Pina Bausch faleceu em junho de 2009.

Ter assistido a este filme foi um experiência saborosíssima, riquíssima e encantadora. Recomendo a todos os amantes da arte. A sensação mais forte que me ficou, entre tantas, foi a de me reconhecer igualmente nos garotos, nas assistentes e em Pina Bausch. Deve ser como no filme "Bebês", que ainda não vi. Somos todos possíveis e os mesmos em nossas particularidades.

À saída da sessão, entreouvimos a senhora que disse, "eu veria 20 vezes esse filme". Fica a dica.

10/10, dia 7, "A oeste de Plutão", Canadá, 2010
Não tenho muito o que falar sobre o filme, achei tão ruim, que saí no meio.

06/10, dia 6, "Tio Boonmée, que pode recordar suas vidas passadas", Apichatpong Weerasethakul (Reino Unido, Tailândia, França, Alemanha, Espanha, 2010)

Sítio do Pica-pau Amarelo [comentário entreouvido no cinema: ah, então é tipo um Sítio do Pica-pau Amarelo?!, rs] tailandês. Gostei muito deste filme, que conta uma história comum de forma incomum, se temos como ponto de vista o senso comum; ou de forma comum, se temos achamos que o sobrenatural faz parte de nossas vidas tanto quanto o palpável. Tio Boonmée mora num sítio e está doente. Não tem muitos dias de vida. A narrativa está imbuída em mostrar o dia-a-dia de Boonmée de modo sereno e calmo entre os seus entes queridos, vivos ou mortos. A naturalidade com que apresenta os personagens, sem desenhar linhas que separam vivos de mortos, é espetacular. Me lembrei várias vezes de David Lynch. Como gosto desses autores que mostram o mundo invísivel como parte integrante do mundo visível! E com que maestria. O filme tem várias cenas geniais. Como Boonmée está em fase de divisão de bens, que não são muitos, rola um certa mesquinharia no lado dos vivos. Aí tasco a frase que o narrador diz em algum momento em off e que pra mim é a chave do filme: "as questões terrenas nunca param de surpreender". Falou e disse.

02/10, dia 5 "Cópia fiel", de Abbas Kiarostami (França, Itália, 2010)

Embate filosófico + DR fake. O que estou escrevendo aqui é uma cópia fiel do texto de outra pessoa que viu o mesmo filme que eu. Essa pessoa não sou eu, mas eu a copio, o que tem o mesmo valor que o texto original. Tudo é original, nada é cópia, porque cada percepção de algo tem o seu valor ao mesmo tempo único e reproduzível. [Ou não, diria Caetano e todos os outros que discordam de mim]; [Ou sim, diria Borges e seu Pierre Ménard]. O que é originalidade? Ela de fato existe? Essa premissa/proposição filosófica aplicada na arte é o tema central de "Copie conforme", o aclamado livro de James, o personagem principal. A personagem de Juliette Binoche é a da moça que assiste à palestra de James e com ele sai pra dar umas voltas. Rola um clima, inicialmente um embate filosófico entre os dois, ainda sobre o mesmo tema, que desemboca em um outro embate. Juliette seduz James para que ele faça o papel do seu ex-marido, que não age com ela como ela acha que ele deveria agir. Desse momento em diante, o filme se torna uma DR e uma grande repetição.


29/09, dia 4 "Nostalgia da Luz", de Patricio Guzman (Chile, 2010)

Raspas, restos e estrelas me interessam. Doc poético+denúcia. O deserto do Atacama, no Chile, é a única área marrom no planeta Terra (à época da constatação de Gagarin - "a Terra é azul" -, o Google Maps sequer era sonho). Tal efeito se dá por conta da ausência de umidade nessa região. A transparência do ar, única nesse clima seco, promove a limpidez do céu e das terras e os estabelece como terreno privilegiado para astrônomos, arqueólogos e familiares de desaparecidos políticos. Ah, sim claro, e para o documentarista Patricio Guzman. Do ar seco que reúne os grupos, Patricio extrai a liga poética entre frases e imagens despudoradamente belas. Rochas e estrelas desfilam perante nossas retinas como em um balé primordial; pausadamente, graças ao seu ritmo perfeito, nelas nos reconhecemos: humanos. Mas eis que surge a primeira denúncia e todo esse ritmo toma outro rumo. São denúncias contudentes, urgentes e importantíssimas sobre a ação do governo de Pinochet contra seus opositores. As falas dos entrevistados alongam-se, a poesia desaparece. Somos então conduzidos aos horrores que a humanidade foi capaz de produzir. Mas a esperança não morre e a poeira das estrelas volta a coalhar nossas retinas, nossa calma, nosso porvir.

"Sempre acreditei que nossa origem estava no solo, mas agora acredito que pode estar muito acima, na luz das estrelas." Patrício Guzman

26/09, dia 3, "Minhas mães e meu pai", de Lisa Cholodenko (Eua, 2010)

Comédia romântica. Duas mulheres casadas há muito tempo têm dois filhos com um mesmo doador de sêmen. Tudo vai nos conformes até que um dos filhos resolve conhecer o pai. O carinha vem chegando todo jeitosinho e traz reviravoltas ao status quo. Como toda comédia romântica, o filme tem a sua dose de doçura, bom humor e cenas engraçadinhas, mas também tem uma dose de chatice. É um filme legalzinho, mas não a tal Brastemp que andam anunciando. [Há quem ache inovadora a normalidade com que se apresenta o casal, mas o fato é que é normal, hello, século XXI, então a "sacada" de tratar como inovador o que é normal, deixa o filme previsível e arrastado, principalmente no terço final].

25/09, dia 2, "Terça depois do Natal", de Radu Muntean (Romênia, 2010)

Não te perdoo por me trair. Casal comum tem crise conjugal comum, porque o marido tem uma amante. Diálogos longos (muitas vezes longos demais) sobre arcadas dentárias e compras de Natal. O filme dá uma guinada quando o marido resolve contar pra mulher que vai partir pra outra. A mulher tira os óculos, dá alteração e o marido (a parte mais interessante do filme) não reage. Deixa o caos se auto-organizar. Ele é bem wu wei, filosofia oriental que preconiza que "tudo aquilo a que você resiste, persiste."

25/09, dia 2, "Ao mar", de Pedro Gonzalez-Rubio (México, 2009)

Mogli mexicano. Linda fábula sobre o encontro na natureza entre pai, avô e filho, um adorável menino de cinco anos. O filme quase inteiro se desenrola no Banco de Recifes de Chinchorro, um paraíso aquático no México. O pai, que separou-se da mãe italiana do menino, quer deixar-lhe como legado o seu dia-a-dia e a sua lida de pescador e amante do simples e do belo, já que Natan deve voltar para Roma no fim do filme. A câmera naturalista mostra tudo como é e isto encanta, exceção feita para os vegetarianos, por conta das muitas cenas dos peixes se debatendo antes de morrer. Destaque para a garça "Blanquita", que se torna amiga de Natan e de seu pai, para o choro do menino ao se despedir, para a natureza deslumbrante e para duas frases que pontuam o filme: "no hay pressa de llegar" [no hay mismo] e "velhos são os caminhos, nós continuamos andando." Partiu ao mar!

25/09, dia 2, "Nossa vida exposta", de Ondi Timoner (Estados Unidos, 2009)

O palhaço Luvvy tá querendo aparecer. Doc multi-facetado díficil de digerir, mas que fica depois do filme como tema a ser investigado, debatido e deglutido. O protagonista é Josh Harris, um filho mal-amado que cresce e resolve aparecer sendo diferente dos demais. Nos anos 80, antevê que a Internet e a evasão da privacidade moverão o mundo. Ganha milhões com projetos de sua autoria como um bunker onde confina na virada do milênio dezenas de pessoas filmadas em todos os seus movimentos. Há uma sala com armas (sic), uma câmara de torturas (sic), drogas liberadas, etc, etc. No projeto seguinte, se auto-confina com a namorada. O viés do doc é: a tecnologia vai dominar as pessoas. Será? Josh pintou na tela como um cara extremamente egocentrado. A impressão que fica é a de que não importa a plataforma, o seu negócio é aparecer de qualquer maneira. Não há mocinhos nem vilões, mas um tema a ser debatido.

24/09, dia 1, "Amores Imaginários", de Xavier Dolan (Canadá, 2010)

Raspas e restos [não] me interessam. Triângulo amoroso não consegue emplacar o clássico quem-come-quem. Amigos, Francis & Marie, se apaixonam por Nico, novo amigo recém-chegado do interior, mas ambos se frustam, se estranham e deprimem. Nico é solar e fugidio, tem um quê de "Morte em Veneza" e de Louis Garrel, que aliás, faz uma ponta no filme. O excesso de cenas fragmentadas, de depoimentos dor-de-cotovelo de quase-anônimos e do uso do slow motion provoca um distanciamento entre o espectador e os personagens. Empatia também é quase amor. Ficou faltando. Vale registrar que os meninos são gatinhos e o Canadá rural é lindo.
Foto: Isabella Lychowski

Friday, 27 August 2010

O velho índio Cherokee | The old Cherokee

Uma noite, um velho índio falou ao seu neto sobre o combate que acontece dentro das pessoas.
Ele disse:

- A batalha é entre os dois lobos que vivem dentro de todos nós.

Um é Mau. É a raiva, inveja, ciúme, tristeza, desgosto, cobiça, arrogância, pena de si mesmo, culpa, ressentimento, inferioridade, mentiras, orgulho falso, superioridade e ego.

O outro é Bom. É alegria, fraternidade, paz, esperança, serenidade, humildade, bondade, benevolência, empatia, generosidade, verdade, compaixão e fé.

O neto pensou nessa luta e perguntou ao avô:

- Qual lobo vence?

O velho índio respondeu:

- Aquele que você alimenta!

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One evening an old Cherokee told his grandson about a battle that goes on inside people. He said, "My son, the battle is between 2 "wolves" inside us all.

One is Evil. It is anger, envy, jealousy, sorrow, regret, greed, arrogance, self-pity, guilt, resentment, inferiority, lies, false pride, superiority, and ego.

The other is Good. It is joy, peace, love, hope, serenity, humility, kindness, benevolence, empathy, generosity, truth, compassion, and faith."

The grandson thought about it for a minute and then asked his grandfather: "Which wolf wins?"

The old Cherokee simply replied, "The one you feed."

Fonte :: Source: O velho índio cherokee :: Cherokee Indian

Monday, 23 August 2010

Dicas de respiração do Doutor Gaiarsa

Segundo pesquisas recentes feitas pelo psiquiatra José Ângelo Gaiarsa, os três cérebros – reptílico, límbico e cortical – que constituem nosso sistema cerebral, e que foram se formando ao longo de nossa evolução peixe-anfíbio-mamífero, se alimentam do oxigênio de forma diferente.

O cérebro reptílico, como o dos próprios répteis, consome muito pouco oxigênio; o límbico, responsável por nossas emoções, também. É o neocórtex cerebral, o mais recente em termos evolucionários e também o responsável por nossa capacidade de pensar, avaliar ou julgar, que consome mais oxigênio dos três.

“Isso significa que, ao respirarmos mais profundamente, o córtex se ilumina: o raciocínio torna-se claro, as conexões cerebrais se ampliam”, afirma. É como trazer gasolina azul para nossa capacidade de pensar.

Se respiramos mal, estamos alimentando apenas nossos cérebros mais primitivos. Ficamos reféns do medo e da agressividade, reações básicas do mecanismo de sobrevivência associadas ao cérebro reptílico, e das emoções negativas geradas no límbico, como inveja, medo, competição.” Ora, são essas as emoções que nos colocam a serviço de modelos impostos pela sociedade. É por competitividade que lutamos por um suposto território, é por inveja que consumimos. E somente a consciência, formada no neocórtex cerebral, pode nos livrar disso.

“Não temos ideia de como a simples respiração pode nos ajudar a nos libertarmos dessas emoções e do domínio que elas nos impõem”, diz limpidamente o pesquisador.

Fontes:
Revista Vida Simples
Biografia de José Ângelo Gaiarsa, um especialista em comunicação não verbal

Wednesday, 11 August 2010

´A origem` (´Inception`) de Christopher Nolan :-(

A origem, humpf!
É meio estranho ver um filme que trata (metalinguisticamente) de sonhos e sentir muuuuuita falta deles. Isso resume o que eu senti ao ver o incensado "A origem" ("Inception"), de Christopher Nolan. Será "A origem" um oxímoro?!

Simplificando, podemos tratar os sonhos (ou qualquer coisa) de duas maneiras.

1 - Somos denotativos e tratamos objetivamente o nosso assunto em questão. Algo tipo "vovô viu a uva". Aí, é correr pro Aurélio e tascar: sonho - "sequência de fenômenos psíquicos que involuntariamente ocorrem durante ou sonho", ou "sequência de ideias vagas, mais ou menos agradáveis, mais ou menos incoerentes, às quais o espírito se entrega em estado de vígilia", ou ainda "aquilo com o que se sonha".

Opa, minha primeira perguntinha. Com o que sonham os protagonistas de Inception? A tecla na qual mais se bate é a da culpa, a grande obsessão de Cobb, o protagonista. E tome sonho atormentado, angustiado, desculpem-me, tão repetidamente angustiado, que tornam-se chatos e óbvios estes sonhos. Tá bem, o filme traz insights sobre sonhos compartilhados, sonhos lúcidos e tem como personagem uma arquiteta (da informação?) que ousa e "produz" um sonho arrebatador de uma Paris quase antropofágica de tanta beleza, mas, caramba, é uma exceção no conteúdo e no timing do filme, porque é incidental e aparece por alguns minutos apenas. O restante, à exceção da sacação dos sonhos compartilhados (desperdiçado pelo conteúdo pra baixo - compartilhar coisas boas, já pensaram, que sonho!) e do final (o único momento que me peguei sonhando de verdade, mas, de novo, apenas por alguns minutos), resume-se à culpa, angústia e ...tiros.
Dizem que a pancadaria veio a reboque do $$ investimento. Tiro pra cá, tiro pra lá, bazucas, explosões a dar com o pau. Sequência tão longas de ra-tá-tá-tá, que a gente esquece até que filme está vendo. Eu que não curto filme de ação e muito menos sonho com matanças, achei chaaaaaaaaato. Já em Matrix (o I, né?), as cenas de ação, aí, sim, incidentais, não se apropriam do conteúdo a ponto de torná-lo secundário e incompleto.

Nesse quesito denotação, também senti falta dos coleguinhas Freud, Jung & Lacan. Podiam ter caprichado mais nos sonhos compensatórios, já que Cobb se sente tão culpado; ou ter lançado mão dos sonhos premonitórios, já que Matrix é uma citação obrigatória. Mas Nolan fica devendo a estes que já sonharam o futuro no cinema: desde Fritz Lang até os irmãos Wachowski.

2 - Agora somos conotativos, e tratamos nosso assunto sonho da maneira como ele é mais corriqueiramente usado: uma metáfora de algo espetacular.

Aurélio strikes again. Sonho - "aquilo que enleva, transporta, pela extraordinária beleza natural ou estética"; "coisa ou pessoa muito bonita: visão"; "o que é produto da imaginação: fantasia, ilusão, quimera."

Aí é que o bicho pega de vez. Tirando as tais exceções (sonho parisiense da arquiteta e sonho final), onde estão os sonhos neste filme?! Help! Onde está o que de melhor desejamos para nós mesmos e para os outros e da melhor maneira possível?

Por isso, "A origem" me soou como um oxímoro, porque é um filme que fala de sonhos que não estão lá.

O conteúdo onírico de Cobb, apoiado na estética dos videogames, é um mundo que vai afundando em níveis (tenebrosos) e camadas (dantescas) para emergir em uma burlesca puxada de tapete de um empresário "otário". Deceiving.

Mal, a mãe dos filhos de Cobb, desculpem-me de novo, a mulher que se ocupa de empurrá-lo pro fundo do poço, é mala. Lamúrias, chorumelas, que se repetem ad nauseam. Ok, não estão remediadas, então não estão remediadas. Ponto. Dizer isso a toda hora é ...chato. E só.

O totem, o objeto "inserido" no filme como uma vinheta para indicar ao espectador quando o sonho é de Cobb, carece de sutileza. Já imaginarm David Lynch plantando um objeto para deixar evidente que a cena final é um sonho? Not!

Compara-se "A origem" com "Matrix". Está certo que "A origem", onze anos depois, apoia-se sobre o insight dos sonhos compartilhados, da inserção da arquitetura da informação no universo criativo e dos sonhos lúcidos. Mas só isso, onze anos depois, é muito pouco. Muito insight correu por debaixo da ponte. Já, em antanho, "Matrix" desloca-nos de nossas reles realidades subjetivas para a possibilidade de uma realidade objetiva compartilhada. "Matrix" é puro sonho que se realiza.

É claro que tudo é uma questão de gosto, que eu criei a singela expectativa de ver um filme sobre sonhos e acabei vendo outra coisa, diferente. Nem é tão ruim assim se eliminarmos as longuérrimas sequências de um bangue-bangue melancólico, porque banaliza à exaustão um mundo que se alimenta de violência como entrenimento. Só não funcionaram como um sonífero para mim, por causa do áudio das armas enlouquecidas.

Confesso que deu um certo desânimo, quando os personagens se vêem "presos" em uma das camadas de sonhos, porque algo deu errado e eles não contavam que o subconsciente de já não me lembro quem estivesse militarizado. Era um gancho para as tais sequências longas de tiroteio. "Subconsciente militarizado"? De quem estamos falando, cara-pálida, de George W. Bush?

Não encontrei sonho na mente atormentada de Cobb. Tampouco em sua cidade erguida à beira-mar, onde os arranha-céus multiplicam-se e esfarelam-se, sem espaço para que qualquer planta surja do asfalto. Me senti no vácuo dos sonhos que sonho, porque "somos feitos da mesma matéria de nossos sonhos". É simples, não desmereço os sonhos de Cobb, nem o que é sonho para Nolan, apenas são diferentes dos meus*.

Paródia de Inception em 30 segundos no You Tube (hilária!):
Imagem
Outras imagens, gracias a @captic
Deu na Revista Megazine, de 07/09/2010, que uma das inspirações de Nolan teria sido uma história do Tio Patinhas. Opa! Via @telionavega
* Trecho de poema de John Keats, citado por Felipe Hirsch, em 06/09/2010
"Colocaria o mundo a teus pés, mas sou pobre e tenho apenas sonhos, quero estendê-los a teus pés, pise com cuidado, são meus sonhos."

Tuesday, 6 July 2010

Profecia de Parravicini sobre acidente no Golfo do México

Profecia de Parravicini sobre acidente da BP no Golfo do México
Benjamín Solari Parravicini nasceu em Buenos Aires em 8/8/1898. Era um artista plástico de renome internacional. Seus dons paranormais começaram a se manifestar na década de 30, quando sentia uma necessidade enorme de desenhar as mensagens que recebia. Com o decorrer do tempo se deu conta de que esses desenhos eram proféticos. As suas profecias têm o mesmo padrão: um desenho acompanhado de um texto que recebia por psicografia. Existem centenas de desenhos e textos proféticos dele.

"EE.UU. E A ÁGUA NEGRA DO GOLFO - O elefante Norte Americano beberá água negra pela sua tromba e começará seu mal."
Uma interpretação recebida por email sem autoria:
Ao girar o mapa da América do Norte (não apenas dos Eua) em 90º, observa-se a semelhança com um elefante. Parravicini podia estar fazendo referência ao derramamento de óleo no Golfo do México, que estaria localizado entre a tromba e a boca da figura do elefante. O ponto vermelho no mapa é o lugar do derrame. O derrame que acontece no mar seria a “água negra" (água e petróleo).
O email traz outras informações posteriores que aqui não reproduzo porque preciso pesquisar se são verdadeiras.
Mais desenhos e profecias de Benjamín Solari Parravinci.

Friday, 2 July 2010

Pra frente é que se anda, 2014 tem mais

Foto de Isabella Lychowski, 20/06/2010
A arte de perder
por Elizabeth Bishop, tradução de Paulo Henriques Britto

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça
(Escreve!) muito sério

Wednesday, 2 June 2010

Fifa Fan Fest, cadê a praia que estava aqui?!

Fifa Fan Fest, foto de Isabella Lychowski A capacidade do Fifa Fan Fest é de 20.000 pessoas
Fifa Fan Fest, foto de Isabella LychowskiMas foram instaladas "torres" com propaganda dos patrocinadores de maneira que quem está na rua e não conseguiu entrar, tampouco consegue ver o telão. Que anti-democrático! Ainda mais na praia , que é de todos.

Fifa Fan Fest, cadê a praia que tava aqui? Foto de Isabella Lychowski
As grades da obra dão uma ideia do que restou da praia.

Fifa Fan Fest, cadê a praia que tava aqui?! Foto de Isabella Lychowski

O Fifa Fan Fest ocupará cerca de um quilômetro de extensão da Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, para transmissão ao vivo dos jogos da Copa do Mundo.
Além da transmissão dos jogos durante o dia, haverá eventos culturais e shows à noite. O acordo entre a Fifa e a Prefeitura do Rio prevê que a cidade-sede deve, entre outras atribuições, construir um espaço com capacidade para receber, no mínimo, 20 mil espectadores, com acomodações suficientes para a instalação de um palco, telões e área de alimentação. O local vai funcionar entre 10h e meia-noite.
Acho que o Fifa Fan Fest deve ser um evento muito bacana pra quem gosta de esportes, mas discordo do local escolhido. A área ocupada é muito grande e agride a natureza.

O que sobrou da pobre praia é um disparate. Por que não utilizaram o Sambódromo ou o Riocentro, por exemplo?

Atualização em 23/06/2010

Fiquei pasma com a instalação de "torres" com propaganda dos patrocinadores do evento ao longo do que seriam os muros laterais do Fifa Fan Fest. Foram instaladas de maneira que quem não conseguiu entrar (a capacidade é de 20.000 espectadores), também não consegue ver o telão do lado de fora da "arena". Que anti-democrático! Ainda mais na praia! Pra mim isso é incompreensível, incongruente e paradoxal. A praia é de todos. Faria tão mais sentido se a população pudesse assistir de fora também. Fica aqui a sugestão.
Atualização em 24/06/2010
Colo aqui embaixo o anúncio institucional publicado pelo Governo Federal em um jornal impresso. Muito bacana, eu também acho que o nosso litoral é direito de todos, mas ainda não consegui achar o conteúdo do Projeto Orla no site indicado para entrar em contato e avisar que eu me sinto impedida de utilizar a praia pelo Fifa Fan Fest! Além disso, diferentemente de outros shows na praia, esta arena tem muros que impedem os que estão fora de assistir aos jogos!
"O litoral do nosso país é um bem público. Ajude a mantê-lo na mão do seu verdadeiro dono: o povo brasileiro.
O litoral brasileiro é um verdadeiro patrimônio natural e seu uso pelo cidadão está assegurado em lei. Por isso o Governo Federal criou o Projeto Orla, que tem o objetivo de preservar e organizar nossa faixa litorânea. Caso você se sinta impedido de utilizar a praia por construções, quiosques ou qualquer outro tipo de empreendimento que esteja sendo erguido na olra marítima, entre em contato com o a gente. Acesse o site www.planejamento.gov.br e fale conosco. Projeto Orla. O uso do nosso litoral é direito de todos."

Tuesday, 25 May 2010

Gordon Matta-Clark, um homem inteiro

Gordon Matta ClarkGordon Matta-Clark (esse bonitinho aí de cima) partiu casas condenadas ao meio, comprou terrenos de 25 cm, ofereceu ar "de graça" aos passantes em Wall Street, boicotou a Bienal de São Paulo e pretendeu explodir um pedaço do Muro de Berlim; amigos o demoveram e ele fez uma "peformance" no local da malograda explosão. Isso tudo nos anos 70.

A obra de Gordon Matta-Clark tem um vigor e um ímpeto contagiantes de salvaguarda do coletivo. Foi com esse espírito que eu saí da sua exposição no Paço Imperial, no Rio de Janeiro (de pé até 25 de julho). Homem nenhum é um ilha, você é o que você compartilha, não dá mais pra mercantilizar moradias, privatizar o coletivo, sair no bloco do eu sozinho. Me lembrei do "Zero Dólar", do Cildo Meirelles, dos discursos de Leonardo Boff, da câmera na mão de Glauber Rocha.

Mais do que isso, fiquei com a sensação de que o legado do moço, morto prematuramente aos 36 anos, é esse mesmo: não dá pra continuar assim, mas dá pra mudar tudo.

Algumas obras que destaco:
Em "Fresh air" (1971, em parceria com o videasta Juan Downey), Gordon Matta-Clark oferece oxigênio a passantes em Wall Street. Já lá se vão 35 anos e a sensação de espanto e desconforto são os mesmos. Estamos mercantilizando a natureza...
Uma série de fotos de terrenos demarcados por Gordon, que na verdade eram micro-terrenos que ele comprou junto com um amigo para... [refletirmos sobre a razão da existência das mansões e sobre a mercantilização da utilização da moradia]...
O vídeo de Gordon fazendo a sua perfomance no Muro de Berlim.
"Splitting" (1974), o vídeo de Gordon partindo uma casa condenada ao meio.
Seus cadernos de desenhos.
As fotos com o pai também artista plástico Roberto Matta e o irmão gêmeo (também morto prematuramente aos 33 anos).

Fontes:
Imagem: blog do Programa de Pós-Gradução da Faculdade de Arquiterura e Desenho de Bio-Bio, no Chile (post muito bacana)
Matéria do JB Online, de 06/05/2010
Bravo!, março de 2010, Gordon Matta-Clark, o homem que fatiava prédios

Saturday, 15 May 2010

Comunidade

Três, foto de Isabella Lychowski
Comunidade
por Franz Kafka

Somos cinco amigos; uma vez saímos um atrás do outro de uma casa; primeiro veio um e pôs-se junto a entrada, depois veio, ou melhor, dito, deslizou-se tão ligeiramente como se desliza uma bolinha de mercúrio, o segundo e se pôs não distante do primeiro, depois o terceiro, depois o quarto, depois o quinto. Finalmente, estávamos todos de pé, em uma linha. A gente fixou-se em nós e assinalando-se, dizia: os cinco acabam de sair de casa. A partir dessa época vivemos juntos, e teríamos uma existência pacífica se um sexto não viesse sempre a se intrometer.
Não nos faz nada, não nos incomoda o que já é o bastante; por que se introduz por força ali onde não é querido. Não o conhecemos e não queremos aceitá-lo. Nós cinco tão pouco nos conhecíamos antes, e se quer, tampouco nos conhecemos agora, mas aquilo que entre nós cinco é possível e tolerado, não é nem possível e nem tolerado com respeito àquele sexto. Além do mais, somos cinco e não queremos ser convivência permanente, se entre nós cinco tão pouco tem sentido,
mas nós já estamos juntos e continuamos juntos, mas não queremos uma nova união, exatamente em razão de nossas experiências. Mas, como ensinar tudo isso ao sexto, posto que longas explicações implicariam em uma aceitação de nosso círculo? É preferível não explicar nada e não aceitar. Por muito tempo que franza os lábios, afastá-lo, empurrando-o com o cotovelo, mas por mais que o façamos, volta outra vez.


Comunidade, conto de Franz Kakfa, tradução de Torrieri Guimarães. Frankfurt, 1952.

Saturday, 1 May 2010

Para Maria da Graça

Alice Liddell, que inspirou Lewis Carroll em seu Alice no País das MaravilahsPara Maria das Graças, por Paulo Mendes Campos*

Agora, que chegaste à idade avançada de quinze anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas. Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti. Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.


A realidade, Maria, é louca. Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?" Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira. A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.


Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo. Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave. A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: "Oh, I beg your pardon!" Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gosta de gatos, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gatos se fosses eu?"


Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! Mas quem ganhou ?" É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste. Disse o ratinho: "Minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.


Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo". Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente. E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor.


Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões. Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas". Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: é feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.

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A primeira vez que li "Para Maria da Graça" prendi a respiração e pensei que nunca mais iria soltar. Eu estava diante de algo muito grande, tão grande que sequer podia divisar o seu contorno. Talvez como Alice, e essa hipótese deve ser a mais provável, eu devo ter diminuído de tamanho e a crônica ficou tão grande que eu fiquei sem saber o que fazer com ela.

É claro que mais adiante eu soltei a respiração em um grande suspiro, aumentei e diminui de tamanho inúmeras vezes e guardei o texto em algum lugar na "parede da memória". Estava ali, bem esquecidinho, até que o hype em torno de Alice em 3D [ironia?!] trincou a parede e o texto voltou.

Desta vez a minha respiração permaneceu inalterada, enquanto eu me pegava sorrindo. Que achado! Em tempos de Internet e compartilhamento, um texto como esse tem mais e que levantar poeira.
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Fontes
Letraselivros [crônica online]
Alice [Alice Liddell, que inspirou Lewis Carroll]
Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll
"Para Maria da Graça", crônica de Paulo Mendes Campos, publicada originalmente em "O colunista do Morro", Ed. do Autor, 1965, e também disponível na coletânea "Para gostar de ler - volume 4 - Crônicas", Ed. Ática, 1980.
*Nessa crônica, Paulo dá de presente de 15 anos o livro "Alice no País das Maravilhas" para sua amiga Maria da Graça. E explica porquê.