Monday, 27 April 2009

A hora agora era uma outra




O temporal hoje nos reteve em algum ponto entre o fim do dia (teimoso de tintas como se fosse manhã) e esses vãos que o mar nos obriga a transformar em contornos e curvas. Assim é a orla da cidade do Rio de Janeiro, uma grande e sinuosa serpente a nos revelar vestígios da natureza, sobre os quais os jornais (mas não só os jornais) falam com assombro científico, como se da natureza já não mais fizéssemos parte. Um tornado pela primeira vez na praia do Pepino?! Chamem os tupis! Levamos uma semana inteira para saber que o que por muito pouco não tínhamos presenciado era um fenômeno raro da natureza e bem menos do que isso para nos darmos conta que sim, somos tão raros quanto ele. Mas não foi isso que hoje vimos. Aquele foi um outro dia. A hora agora era uma outra e outros eram o assombro e a entrega à nova e voluntariosa tromba d´água. Não foi tampouco essa a primeira vez que a praia e a mata, ainda que varadas por carros esbaforidos e fumegantes, nos abrigou e nos reteve em nossos díspares caminhos, enquanto, em sentido inverso, os céus abriam-se em franca expansão, para que os ventos os pudessem rasgar com sua devida propriedade e a chuva se desse, satisfeita e pródiga.

Entre risadas, largamos para trás o carro com o pisca-alerta ligado. Uma mancha cinza embaixo de gotas cinzas emoldurada por um mar cinza mas também verde, bem próximo do local exato em que as ondas teimam em quebrar e nos convidar, ainda que nem mesmo os biguás tivessem se animado a sobrevoar o inquieto espelho d´água. Houve quem pudesse pensar que o mundo estivesse a escorrer lá do alto Vidigal e que nunca, nunca mais conseguiríamos sair dali; ou bem sairíamos, ou bem não seríamos os mesmos. Mas esse foi um pensamento banal, que nos atravessou como nos atravessam os ruídos, os fantasmas e a calma. O que pairava, além do temporal, era a certeza de que tudo aquilo ali era o que podíamos viver de melhor naquele momento. Ninguém na verdade duvidou, nem por um átimo, que em breve ressurgiríamos purificados e alegres nas franjas do Leblon.

E sim, é interessante registrar que até agora não sabemos a que horas o reboque chegou.

Vídeo no You Tube 1, Vídeo no You Tube 2 , texto o sobre o tornado

2 comments:

Elisa said...

Bella, o texto ficou mt bonito, bem escrito e rico.
Não sei se é minha lentidão cerebral pós-provas ou falta de capacidade literária, mas eu me senti lendo um capítulo de "O Guarani", ainda mais com tantas referências à Natureza. Rsss...
Bom, ainda bem que vcs se salvaram - e a van? Teve a mesma sorte?

good news said...

Elisa! Obrigada pela visita, adorei o seu comentário e ri litros, a exceção realmente confirma a regra. Lembra um pouco aquele nosso papo de signos, arqueiros zen, etc.

Você tem uma ótima memória e eu, bem, só rindo!

Dei uma olhada no Google pra captar melhor o "link" que vc fez com "O Guarani", já que nada me ocorreu além do derrame de ajetivos, ok, exagerei um pouco. Mas foi por uma boa causa. :-)

E olha o que eu achei. Um resuminho do final do livro. Não é hilário? Lendo isso, vc vai ter uma noção do que poderia ter acontecido com a van (mas não aconteceu, não se preocupe). Mas sério, é impressionante como você captou o espírito da coisa, seja lá que coisa é essa. ;-)

bjos!
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"Testemunhas únicas do ocorrido, Peri e Ceci caminham agora por uma natureza revolta em águas, enfrentando a fúria dos elementos da tempestade. Cecília acorda e Peri lhe relata o sucedido. Transtornada, a moça se vê sozinha no mundo. Prefere não mais voltar ao Rio de Janeiro, para onde iria. Prefere ficar com Peri, morando nas selvas.
A tempestade faz as águas subirem ainda mais. Por segurança, Peri sobe ao alto de uma palmeira, protegendo fielmente a moça. Como as águas fossem subindo perigosamente, Peri, com força descomunal, arranca a palmeira do solo, improvisando uma canoa. O romance termina com a palmeira perdendo-se no horizonte, não sem antes Alencar ter sugerido, nas últimas linhas do romance, uma bela união amorosa, semente de onde brotaria mais tarde a raça brasileira..."
http://www.netsaber.com.br/resumos/ver_resumo_c_2182.html